quinta-feira, 21 de abril de 2011

Felicidade Clandestina




Ela era gorda, baixa, sardenta e de cabelos excessivamente crespos, meio arruivados. Tinha um busto enorme, enquanto nós todas ainda éramos achatadas. Como se não bastasse, enchia os dois bolsos da blusa, por cima do busto, com balas. Mas possuía o que qualquer criança devoradora de histórias gostaria de ter: um pai dono de livraria.
Pouco aproveitava. E nós menos ainda: até para aniversário, em vez de pelo menos um livrinho barato, ela nos entregava em mãos um cartão-postal da loja do pai. Ainda por cima era de paisagem do Recife mesmo, onde morávamos, com suas pontes mais do que vistas. Atrás escrevia com letra bordadíssima palavras como "data natalícia" e "saudade".
Mas que talento tinha para a crueldade. Ela toda era pura vingança, chupando balas com barulho. Como essa menina devia nos odiar, nós que éramos imperdoavelmente bonitinhas, esguias, altinhas, de cabelos livres. Comigo exerceu com calma ferocidade o seu sadismo. Na minha ânsia de ler, eu nem notava as humilhações a que ela me submetia: continuava a implorar-lhe emprestados os livros que ela não lia.
Até que veio para ela o magno dia de começar a exercer sobre mim uma tortura chinesa. Como casualmente, informou-me que possuía "As reinações de Narizinho", de Monteiro Lobato.
Era um livro grosso, meu Deus, era um livro para se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o. E completamente acima de minhas posses. Disse-me que eu passasse pela sua casa no dia seguinte e que ela o emprestaria.
Até o dia seguinte eu me transformei na própria esperança da alegria: eu não vivia, eu nadava devagar num mar suave, as ondas me levavam e me traziam.
No dia seguinte fui à sua casa, literalmente correndo. Ela não morava num sobrado como eu, e sim numa casa. Não me mandou entrar. Olhando bem para meus olhos, disse-me que havia emprestado o livro a outra menina, e que eu voltasse no dia seguinte para buscá-lo. Boquiaberto, saí devagar, mas em breve a esperança de novo me tomava toda e eu recomeçava na rua a andar pulando, que era o meu modo estranho de andar pelas ruas de Recife. Dessa vez nem caí: guiava-me a promessa do livro, o dia seguinte viria, os dias seguintes seriam mais tarde a minha vida inteira, o amor pelo mundo me esperava, andei pulando pelas ruas como sempre e não caí nenhuma vez.
Mas não ficou simplesmente nisso. O plano secreto da filha do dono de livraria era tranqüilo e diabólico. No dia seguinte lá estava eu à porta de sua casa, com um sorriso e o coração batendo. Para ouvir a resposta calma: o livro ainda não estava em seu poder, que eu voltasse no dia seguinte. Mal sabia eu como mais tarde, no decorrer da vida, o drama do "dia seguinte" com ela ia se repetir com meu coração batendo.
E assim continuou. Quanto tempo? Não sei. Ela sabia que era tempo indefinido, enquanto o fel não escorresse todo de seu corpo grosso. Eu já começara a adivinhar que ela me escolhera para eu sofrer, às vezes adivinho. Mas, adivinhando mesmo, às vezes aceito: como se quem quer me fazer sofrer esteja precisando danadamente que eu sofra.
Quanto tempo? Eu ia diariamente à sua casa, sem faltar um dia sequer. Às vezes ela dizia: pois o livro esteve comigo ontem de tarde, mas você só veio de manhã, de modo que emprestei a outra menina. E eu, que não era dada a olheiras, sentia as olheiras se cavando sob os meus olhos espantados.
Até que um dia, quando eu estava à porta de sua casa, ouvindo humilde e silenciosa a sua recusa, apareceu sua mãe. Ela devia estar estranhando a aparição muda e diária daquela menina à porta de sua casa. Pediu explicações a nós duas. Houve uma confusão silenciosa, entrecortada de palavras pouco elucidativas. A senhora achava cada vez mais estranho o fato de não estar entendendo. Até que essa mãe boa entendeu. Voltou-se para a filha e com enorme surpresa exclamou: mas este livro nunca saiu daqui de casa e você nem quis ler!
E o pior para essa mulher não era a descoberta do que acontecia. Devia ser a descoberta horrorizada da filha que tinha. Ela nos espiava em silêncio: a potência de perversidade de sua filha desconhecida e a menina loura em pé à porta, exausta, ao vento das ruas de Recife. Foi então que, finalmente se refazendo, disse firme e calma para a filha: você vai emprestar o livro agora mesmo. E para mim: "E você fica com o livro por quanto tempo quiser." Entendem? Valia mais do que me dar o livro: "pelo tempo que eu quisesse" é tudo o que uma pessoa, grande ou pequena, pode ter a ousadia de querer.
Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim recebi o livro na mão. Acho que eu não disse nada. Peguei o livro. Não, não saí pulando como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que segurava o livro grosso com as duas mãos, comprimindo-o contra o peito. Quanto tempo levei até chegar em casa, também pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração pensativo.
Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre iria ser clandestina para mim. Pareceu que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar... Havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada.
Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo.
Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.

Clarice Lispector

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Adriana Pitanga





Finzinho de dia chuvoso ouvindo "meu" Chico. Deu vontade de postar.Gosto de fazer( e só faço) as coisas quando tenho vontade. Acho que tenho aprendido a ser assim. Com toda a minha complicadeza eu sou uma pessoa simples. Aprendi que toda vez que menti, principalmente para mim mesma, e não fui fiel aos meus desejos, me ferrei. Então, passei a não fazer mais isso. E meus desejos são cada vez mais simples: quero ler bons livros, quero ouvir música, quero dançar cada vez mais, quero ver bons filmes,sorrir,chorar e amar.
Quero curtir minha casa.
Quero cozinhar para as pessoas que amo, receber meus amigos.
Quero fazer amor, quero ter amores...
Quero dormir quando tenho sono (mesmo que em horários não convencionais), comer quando tenho fome (idem) e poder ficar quieta quando não tenho vontade de falar(mesmo que raro, rs!).
Quero conversar e contar tudo do meu dia, nos mínimos detalhes, quando tenho vontade de falar e contar tudo do meu dia, nos mínimos detalhes. Mesmo que isso não interesse a ninguém...
Quero o meu corpo cada vez mais alongado e forte, quero sentir-me inteira.
Quero ter tranquilidade e leveza na vida, e não me angustiar com o que não tem solução. Por isso busco tratar o que me deixa o contrário disso, sem controle...
Quero andar pela praia, observar as pessoas, ouvir suas conversas, aprender e trocar com elas. Quero ter a coragem de pagar para ver e quero de graça também...
Quero que as pessoas que eu amo saibam disso, mesmo que às vezes eu suma e fique muito tempo sem aparecer...
Quero falar sozinha na rua e sorrir sem nem perceber...
Quero que me descubram e explorem cada parte do meu corpo, com fascínio, humor, prazer...
Quero viver cada vez mais simples, conversar e estar com pessoas inteligentes e livres. Quero sentir os cheiros do mundo, como o do café que me chega, agora, da minha cozinha. Quero fechar os olhos e respirar fundo. Quero sentir o gosto da comida que como e desmanchar-me na bebida que bebo. Quero sonhar muito e ser sonhada. Viver muito, junto e só, múltipla e inteira.
Quero poder viver bem junto ao meu tempo e ser dona das coisas, mesmo que elas não caibam no dia, quero que minha vida me pertença e que ninguém tenha nada com isso, a não ser que eu tenha aberto a porta, para a pessoa entrar. Poucas coisas, cada vez menos coisas, e cada vez melhores. Quero ser simples, quero ser o que sou, hoje, agora. Quero. Quero muito. E querer liberta. Nestes minutos que se passaram (não sei quantos), apenas quis. E fui livre. Sou livre. Serei livre.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

A samambaia e bambu



Certo dia decidi dar-me por vencido. Renunciei ao meu trabalho, às minhas relações, e à minha fé.Resolvi desistir até da minha vida.Dirigi-me ao bosque para ter uma última conversa com Deus.“Deus, eu disse:Poderias dar-me uma boa razão para eu não entregar os pontos?” Sua resposta:“Olha em redor Estás vendo a samambaia e o bambu?”“Sim, estou vendo”, respondi.Pois bem. Quando eu semeei as samambaias e o bambu, cuidei deles muito bem. Não lhes deixei faltar luz e água.A samambaia cresceu rapidamente.Seu verde brilhante cobria o solo."Porém, da semente do bambu nada saía.Apesar disso, eu não desisti do bambu. No segundo ano, a samambaia cresceu ainda mais brilhante e viçosa.E, novamente, da semente do bambu, nada apareceu. Mas, eu não desisti do bambu.No terceiro ano, no quarto, a mesma coisa… Mas, eu não desisti. Mas… no quinto ano, un pequeno broto sai da terra. Aparentemente, em comparação com a samambaia, era muito pequeno , até insignificante.Seis meses depois, o bambu cresceu mais de 50 metros de altura.Ele ficara cinco anos afundando raízes.Aquelas raízes o tornaram forte e lhe deram o necessário para sobreviver.“A nenhuma de minhas criaturas eu faria um desafio que elas não pudessem superar”. "E olhando bem no meu íntimo, disse: Sabes que durante todo esse tempo em que vens lutando, na verdade estavas criando raízes? Eu jamais desistiria do bambu. Nunca desistiria de ti.Não te compares com outros”.“O bambu foi criado com uma finalidade diferente da samambaia, mas ambos eram necessários para fazer do bosque um lugar bonito”.“Teu tempo vai chegar” disse-me Deus."Crescerás muito!" Quanto tenho de crescer? perguntei.“Tão alto como o bambu?” foi a resposta.E eu deduzi: Tão alto quanto puder!Espero que estas palavras possam ajudar-te a entender que Deus nunca desistirá de ti.Nunca te arrependas de um dia de tua vida. Os bons dias te dão felicidade.Os maus te dão experiência. Ambos são essenciais para a vida.A felicidade te faz doce.Os problemas te mantêm forte.As penas te mantêm humano.As quedas te mantêm humilde. O bom êxito te mantém brilhante.Mas, só Deus te mantém caminhando...